avenida da IGREJA
Original com 29,5x41cm
Tinta acrílica ecológica à base de água e pastel seco s/ papel
Licitação mais alta: 190€
(o valor da licitação é atualizado todos os dias às 18:00 horas)
Ouve a narração da autora:
Tenho um carinho muito especial por esta zona e em particular esta avenida.
É que vivo por aqui há mais de 10 anos e já a vi vestida de todas as estações.
No Natal, as famílias encasacadas e as barraquinhas de madeira enchem-na mais que o habitual. Há que incentivar o comércio local.
A Avenida brilha num Carnaval de luzes douradas, prateadas e vermelhas, em forma de estrelas, anjos ou sinos. Os megafones suspensos nos postes de iluminação cantam todo o repertório conhecido desta época, convidando ao espírito consumista de quem a percorre.
Durante o outono, a fumarada branca com cheiro a castanhas dispensa pregão e fazem-se filas para o cone de folha de jornal. Um aroma que começa na Praça de Alvalade e sobe pela avenida. As árvores ficam carecas e o chão vira tapete de folhas estaladiças de todos os tons quentes.
Mas no ar é o frio que reina e no inverno quase não há espaço para se cruzarem duas pessoas, com os chapéus de chuva a ocupar metade do largo passeio. É o que mais gosto na avenida – os passeios largos.
No Verão, as sandálias de pé ao léu ficam coladas ao chão, devido à seiva dos plátanos e as pessoas refugiam-se do calor na sua sombra. Na Primavera é quando ela capricha e veste o seu melhor verde e até o cheiro é mais aromático.
É um bairro muito familiar e para quem lá vive, as lojas não têm nome, senão o nome de quem lá trabalha.
O cabeleireiro é a Sandra e Carina, o café é o do Nuno e da Cristina.
Cumprimento de beijinho o vizinho Honorato, que me pergunta sempre como vai a família e sou muitas vezes interpelada pela senhora do quiosque para me avisar que já saiu a minha revista. O Júlio da loja de caça não se levanta por detrás do seu balcão, mas acena-me sempre com o braço levantado. A menina da frutaria, que não sei o nome, mas que me deixa pagar depois, quando me faltam os trocos. A Zezinha e a Delfina do mercado sabem como adoro figos e guardam-me sempre 3 ou 4, de cortesia.
As poucas lojas mais antigas ainda resistem de pé – pergunto-me sempre até quando – mas são as novas, as mais trendy e modernas, em grande competição com o bairro de Campo de Ourique, que predominam cada vez mais.
Saio de casa e tenho de decidir se me apetece o meu café acompanhado com o brigadeiro da Arcádia, com o “queijinho” conventual do Nuno e da Cristina, ou com o pastel de nata da Manteigaria.
Sentia algum orgulho sempre que esbarrava na grande lona vermelha a tapar a loja inacabada da Manteigaria “Obra gerida pela Cushman & Wakefield”, agora aberta ao público. Um trabalho feito por mim, mesmo à porta de casa.
Decido descer a avenida, pondo em cima da mesa uma quarta opção, talvez influenciada pelo nome, que promete mundos e fundos – O Melhor Croissant da Minha Rua.
A esta hora a fila ainda não é enorme, por isso é de aproveitar. Peço o meu croissant com chocolate preto, o café cheio e sento-me na esplanada, em plena avenida. A rua e as esplanadas começam a encher-se de adolescentes barulhentos saídos da escola, que sobem e descem em grupos e fazem a fila que costuma ser interminável, na croissanteria.
“Que raiva, mas porque é que eu não vi Deus, pá?” Conversa entre dois adolescentes que já apanhei a meio.
“Mas há teorias filosóficas que eu adoro”.
Há várias conversas que vou ouvindo, algumas sem querer, e que me apetece muito registar. As das velhotas principalmente. Este bairro tem outra característica muito agradável e que gostava que não se perdesse – as lojas dos ofícios em perigo de extinção, mas que tornam o bairro mais autêntico e com um certo saudosismo pelo passado. A velha loja da Mariazinha, o barbeiro antigo, a retrosaria, o sapateiro, a carpintaria onde arranjam cadeiras e outras madeiras…
Foi numa retrosaria que encontrei uma senhora mais velha, com muita vontade de conversar. Levava na mão um vestido comprido, para arranjar. “Levei este vestido há um par de anos a Óbidos, parecia uma medieval. Voava indecentemente oh oh oh!” Ri-me com ela, comprei uns botões e segui o meu caminho.
Neste trajeto de volta a casa, houve tempo para o beijinho do vizinho Honorato, de agradecer à senhora do quiosque ter-me guardado a revista e de saudar a Carina, que ia a fechar o cabeleireiro.
Passei na frutaria a saldar as dívidas e ainda trouxe umas frutas e legumes extra para o jantar.